sábado, 19 de janeiro de 2008

Passado, Presente e Futuro

“O crescimento do Metal nacional foi tal que ultrapassou até as fronteiras do Brasil. Levados para a Europa e para os EUA, os discos das bandas brasileiras causaram furor, merecendo destaque nas mais importantes revistas especializadas estrangeiras.”

Esse pequeno trecho reproduzido aí em cima poderia ter saído de qualquer uma dessas matérias de espírito memorialista/comemorativo, que sites e revistas especializados jogam em cima do público neste início de ano novo.

Afinal, esse trecho poderia estar se referindo muito bem a nomes como Tribuzy, Hangar, Mindflow, Shadowside, Torture Squad, Nevorchaos, Tuatha de Danann e Tempestt; que se juntam a nomes já consolidados como Shaman, Angra, Sepultura e Krisiun no disputado mercado dos países desenvolvidos.

Mas não meus amigos leitores (será que tem alguém lendo?), esse trecho é extraído da edição número 48 da extinta revista carioca METAL, publicado em 1988. No texto comemorativo (por Leonardo Pimentel) dos então 4 anos da revista se aponta as dificuldades, mas também o futuro promissor da então jovem cena Heavy Metal brazuca.

Deparei-me com essa edição da revista por acaso, numa daquelas descompromissadas buscas arqueológicas em que volta e meia eu me meto num sebo. Ao ver uma cópia dessa mitológica revista (da qual muito já tinha ouvido falar mas que não conhecia), fiquei impressionado como algumas coisas parecem ter mudado tão pouco ou quase nada.

A primeira coisa a chamar a atenção é essa perspectiva de jogar para o futuro esse El Dorado ainda a ser descoberto. Mas convenhamos, o que poderia ser mais brasileiro do que isso? Somos o eterno país do futuro, onde todas as nossas dificuldades e contradições um dia serão superadas num futuro meio próximo, meio distante.

Não deveria ser de se estranhar portanto que em 1988, com bandas como Sepultura, Dorsal Atlântica, Viper, Taurus e tantas outras de qualidade, o futuro glorioso parecesse bater a porta. Então o que dirá hoje em dia? Quando devido a enorme quantidade de lançamentos (com certeza em quantidade bastante superior à de 19 anos atrás) e a bem sucedidas investidas internacionais de alguns poucos nomes parecem fazer crer a algumas pessoas que o futuro do Brasil como um importante celeiro do Heavy Metal é apenas uma questão de tempo para se concretizar.

Mas de 1988 para cá as coisas não caminharam como a festiva matéria da combativa revista poderia levar alguém a crer na época. Claro, aqui não se trata apenas de olhar para a própria cena HM em busca de respostas para problemas que ultrapassam o nosso querido gênero musical. Levemos em conta a onda Grunge na década de 1990, e a onda New Metal e Emocore no início deste novo século. E em se tratando mais especificamente de nosso país não nos esqueçamos das crises econômicas (obrigado FHC!) e dos desastrados planos monetários (FHC tá em todas!).

Também não quero com essa despretensiosa reflexão dar a entender que seremos eternamente condenados à danação de ver o futuro glorioso sempre escapar de nossas mãos. Mas vale a pena pensarmos o do porque as coisas serem como são. Afinal, passou décadas e o Heavy Metal nacional ainda se encontra preso em guetos. O mesmo público que bate recorde na velocidade de venda de ingressos para ver o Iron Maiden em estádios é o mesmo público que condena o Korzus a tocar em média para menos de 600 pessoas. É difícil termos uma cena reconhecida internacionalmente quando os produtos advindos diretamente dela são relegados ao segundo plano...

Não tenho dúvidas de que o Brasil possui hoje um dos maiores mercados consumidores do gênero pesado no mundo. A forte mídia e gravadoras especializadas não me deixam mentir. Mas continuamos a ser predominantemente consumidores do que vem de fora! Ainda falta percorrer uma boa estrada para nos considerarmos um grande pólo criador.

Outra coisa que me preocupa é o ainda forte divisionismo que parece emperrar a nossa cena. Esse apartheid entre “trues” e “posers” já era diagnosticado (com preocupação) pelo jornalista Pimentel.

Abre aspas:

Nesse mesmo ano, porém, vimos nascer aquilo que mais prejudicaria este mesmo Heavy: o divisionismo. Foi no final desse ano (nota do blogueiro: 1985) que começamos a ouvir a expressão “false metal” com mais freqüência, geralmente da boca de garotos que pouco conheciam da história do Heavy, apesar dos esforços de METAL para divulgá-la.

Inicialmente, essa história de “false metal” era uma jogada comercial do Manowar, que se afirmava “a única banda de Heavy Metal da América”. Porém, a jogada acabou virando uma bomba que explodiu na mão do próprio Manowar, com as reações a seu último disco. No Brasil, essa conversa fiada acabou fazendo com que muitos garotos renegassem muitas das bandas que ouviam na véspera e segregassem quem tinha juízo bastante para não embarcar nessa canoa furada.

Fecha aspas.

O pior é constatarmos que esse preconceito apenas se intensificou com o tempo. Pois se antigamente existiam indivíduos que se arrogavam “trues” (muitas vezes se identificando com o Metal Tradicional, o Thrash e vertentes mais extremas), hoje vemos adolescentes e jovens adultos que começaram a ouvir Metal na segunda metade dos anos 1990 e no início do século XXI que se isolam no seu mundinho de Metal Melódico, Power Metal e (agora) Prog Metal.

Essa geração (da qual faço parte) talvez tenha uma das mentes mais fechadas e gosto mais sectário da história da cena, detentora de uma visão nublada pelo egocentrismo de achar que o Mundo começou ontem. Isso sem falar, dos “tiozões do Metal”, aquelas mesmas pessoas que em 1988 eram garotos pouco esclarecidos presos em suas próprias ignorâncias e pré-conceitos, e que agora velhos, continuam agindo da mesma forma. Também há aqueles que simplesmente não souberam (ou conseguiram) mudar junto com o mundo real. A esses, restou maldizer o gosto e as atitudes das gerações mais novas, numa atitude esclerosada e caduca que se limita a criticar qualquer coisa que cheire a “moderno”, e muitas vezes insistindo em relembrar um passado idílico que nunca existiu. Esses indivíduos não passam de fumaça que aos poucos vai se evanescendo. O pior é ver pessoas novas incorporando esse mesmo discurso morto...

Por último, mas não menos importante, destaco dessa matéria da METAL a reflexão do jornalista referente à forma como o gênero é retratado na grande mídia.

Abre aspas:

Aí veio o Rock in Rio. Seus organizadores, com uma visão melhor do rock no exterior, trouxeram nada menos que cinco bandas metálicas: Whitesnake, Scorpions, AC/DC, Ozzy Osbourne e o grande Iron Maiden. Tendo em METAL uma divulgação séria, que incluiu até equipamentos, os heavies iniciaram uma mobilização em todo o país para assistir a seus ídolos. Como não podia mais ignorá-los, a mídia tentou absorver os fãs de rock pesado. O termo “metaleiro”, até então usado normalmente pelos heavies (nota do blogueiro: grifo meu), foi massificado a um nível irritante, enquanto apareciam em todo lugar matérias e artigos tentando explicar às “pessoas normais”, porque “aqueles meninos se comportavam daquela maneira esquisita”.

Com o festival, METAL se afirmou entre os heavies. Em pouco tempo o número seis estava nas bancas, trazendo a única cobertura completa e especializada do Festival. Com entrevistas sérias, matérias detalhadas e fotos exclusivas, mostramos que o grande vitorioso tinha sido o Heavy Metal, pois seus apreciadores puderam mostrar e ver o quanto eram grandes. Parte da imprensa tradicional tentou reagir, chamando nossa cobertura de “trunfalismo metálico”, mas acabou afundando na própria falta de argumentos.

Fecha aspas.

Acredito que o quadro geral não mudou muito com o passar dos anos. Todos que se preocupam em ler para além da mídia especializada em HM sabem do que estou falando. Principalmente em publicações e sites que falam de música de maneira geral (ou rock de uma forma genérica) e nos cadernos culturais dos jornalões onde críticos musicais e jornalistas encastelados tentam dizer o que é “in” e o que é “out”, e são os grandes responsáveis por essa onda “indie” (que de independente pouco tem) que vem assolando uma parcela de nossa mídia. Filhos abandonados do pós-punk (os mais velhinhos) e do grunge (os não tão velhinhos) esse é o canto de cisne desses críticos. É claro, há as honrosas exceções, no momento me vem à mente (por exemplo) o Caderno B do Jornal do Brasil; não que o apoio ao gênero seja satisfatório nessa publicação, mas pelo menos quando ele aparece nas páginas do jornal não se dá de uma forma estereotipada e preconceituosa. O mesmo não se pode dizer do jornal O Globo...

Na televisão a situação é ainda pior. Aparecendo de forma muito esporádica em alguns poucos canais (como a MTV Brasil, Play TV e na Globo) o reduto heavy é mesmo o programa Stay Heavy no canal NGT.

Alguns podem pensar que o futuro da cena é garantido pela mídia especializada (fanzines, blogs, revistas e sites) mas tenho dúvidas da capacidade da cena continuar crescendo nesse formato. Acredito que se não formos capazes de ocupar novos espaços brevemente encontraremos um teto intransponível.

Pois é, enquanto grande parte desse nosso mundinho optou por comemorar as conquistas obtidas até agora, o blog Arise! preferiu refletir da forma inversa. Se pensarmos bem faz sentido agirmos dessa forma, pois este blog é um legítimo filho da cena carioca, e daqui é difícil enxergarmos (pelo menos ainda) esse mar de rosas que é anunciado a som de trombetas.

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Mas nem tudo é só amargura, para não dizer que eu não falei das flores, aqui vai uma boa notícia: estaremos publicando (mais cedo ou mais tarde) nossa primeira entrevista!

Batemos um papo ótimo com Adam e Felipe da Rio Metal Works e conversamos sobre os mais variados assuntos.

Também estaremos dando boas vindas a novos colaboradores (na semana que vem já estréia um).

Quem viver verá...

Abraços,

Artur Henriques.

Um comentário:

new horizons disse...

Muito obrigado pela divulgação!!!