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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Classic Album: Mortification - Break the Curse

Na sessão Classic Albums pretende-se homenagear as obras que merecem ser relembradas. Aqueles álbuns que consideramos fundamentais para os ouvintes de Heavy Rock...


Por Wesley Rodrigues

O impactante show do Apocalyptic Raids no Metal Battle me fez viajar pelo oldschool. Passei uns dias ouvindo Possessed, Venom, Hellhammer, além de, é claro, o próprio Apocalyptic. Todo esse mergulho me levou também a revisitar uma banda que andava há um tempo esquecida por mim, o Mortification. Break the Curse é o primeiro trabalho dos australianos, de 1990. Está feita aí a indicação para quem nunca ouviu e um convite a novas audições de quem já conhece o trabalho dos caras. Riffs certeiros, voz matadora de Steve Rowe, cozinha animal, violência: tudo de acordo com os padrões do mais exigente banger. A não ser que o banger seja tão exigente que não admita todo o sermão cristão dessa banda de White Metal. De fato, dói aos ouvidos toda a pieguice evangelizadora dos caras. As letras são exatamente iguais ao panfleto que alguma velha senhora da Igreja Universal deve ter te dado hoje pela manhã. Mas todo desagrado lírico é insignificante diante do bom gosto, do peso e da precisão desse petardo metálico. Agora, se você continuar achando que mais importante que a música é louvar Satanás, que mate um bode. Converse também com a mulher da Universal. Pode não parecer, mas vocês dois têm muito em comum.

Mortification é bom pra caralho! Aleluia, irmãos!

Faixas:
1 - Blood Sacrifice (S.Rowe)
2 - Brutal Warfare (S.Rowe, J.Sherlock)
3 - Impulsation (S.Rowe)
4 - Turn (J.Sherlock)
5 - New Beginnings (S.Rowe)
6 - Break the Curse (S.Rowe)
7 - Ilusion of Life (C.Hall)
8 - Your Last Breath (Letra: J.Sherlock, Música: S.Rowe)
9 - Jorney of Reconciliation (Letra: J.Sherlock e S.Rowe, Música: J.Sherlock)
10 - The Majestic Infiltration os Order (S.Rowe)


Line-up:
Steve Rowe: Baixo e Vocal
Jayson Sherlock: Bateria
Cameron Hall: Guitarra

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Classic Album: Type O Negative - October Rust

Na sessão Classic Albums pretende-se homenagear as obras que merecem ser relembradas. Aqueles álbuns que consideramos fundamentais para os ouvintes de Heavy Rock...

Nota: Esse review foi originalmente escrito na forma lusitana da língua portuguesa. O blog ARISE! optou por manter dessa forma no intuito de preservá-lo como foi concebido.


Type O Negative - October Rust

Escrito por PhiLiz

Introdução
A unicidade que caracteriza e define Type O Negative (seja no âmbito musical ou fora dele) faz com que a exploração do universo da banda seja uma tarefa hercúlea sobretudo na gestão das inúmeras sensibilidades do colectivo americano (particularmente a humorística). Uma pequena escorregadela e o ridículo toma conta da situação... e quanto a isto, um pequeno vislumbre na personalidade da banda (e em especial do gigante Peter Ratajczyk, mundialmente conhecido como Peter Steele) permite compreender a razão pela qual tantos mal-entendidos (quase sempre ridículos) surgiram (e ainda surgem) em relação à banda de Brooklyn.

A banda é conhecida por incluir nas letras (e não só) doses industriais de humor negro, referências em relação a algumas polémicas que os envolvem (geralmente de forma humorística mas bastante incisiva) e pela corrosibilidade de várias afirmações. Assim, a ironia e o sarcasmo são peças fundamentais no repertório da banda (sejam em letras ou noutro tipo de contactos com o público) e como tal a falta de cuidado (sobretudo quando a banda se tornou mais conhecida) na interpretação de alguns aspectos de Type O Negative (ou mesmo na própria atitude por detrás da banda) faz com que surjam muitas situações hilariantes dada a falta de "perspicácia" de alguns "intérpretes" do universo de TON... claro que isto é capitalizado pela banda o que geralmente só faz aumentar, ainda mais, o absurdo de tais interpretações.

Paradigmático de tudo o que disse anteriormente são os primeiros anos de Type O Negative e estende-se, no caso de Steele, até a Carnivore (banda de Thrash Metal/Crossover em que o vocalista/baixista esteve antes de Type O Negative). O uso de léxico associado a ideologias nazis na faixa Der Untermensch de Slow, Deep And Hard (ainda que de forma figurada uma vez que a letra denota uma visão geralmente partilhada pela direita conservadora americana no que concerne ao "Welfare State" e não se refere ao ideal racial), declarações incendiárias (ainda em ligação com a música mencionada), acusações de machismo (o facto do primeiro álbum retratar a traição de uma namorada de Peter Steele de forma bastante agressiva - ainda que humorística - levou a acusações de Misoginia) e diversos episódios que vão desde o surreal ao imensamente cómico. Um deles envolve o segundo álbum da banda, um falso álbum ao vivo em que a banda adicionou efeitos para dar a sensação de que tinha sido gravado ao vivo, sendo que existem alguns cânticos bastante desrespeitosos para com a banda como "You suck! You suck!" propositadamente adicionados... para efeitos burlescos, claro. Igualmente a capa segue a mesma linha de humor com a imagem extremamente próxima do ânus do vocalista/baixista, Peter Steele... dai o nome do álbum: The Origin Of The Feces (Not Live At Brighton Beach).

Claro que tudo isto foi prontamente aproveitado pela banda e em diversos campos. Em 1993 a banda lança o seminal Bloody Kisses que lança definitivamente TON para o mainstream. O sucesso de temas como Black No. 1 (Little Miss Scare-All) (satírica perfeita a vários estereótipos da cultura gótica) e Christian Woman (a presumível história de uma freira com um peculiar tipo de "desejos") levou a banda à ribalta (até um pouco fora do mundo Metal) e deu à Roadrunner Records os seus primeiros discos de ouro e platina. Juntamente com estes temas estavam músicas com o tradicional humor da banda: Kill All The White People e We Hate Everyone eram caricaturas de todas as controvérsias, nomeadamente aquelas em que eram acusados de serem racistas.

Bloody Kisses, no entanto, foi importante - acima de qualquer outra coisa que possa surgir - por ter representado uma demarcação sonora evidente do passado da banda. O primeiro trabalho de estúdio de TON já tem alguns elementos diferentes do tradicional som de Carnivore (embora inicialmente fosse suposto ser um álbum de Carnivore) com mais inclusões nos terrenos do Doom (embora, de novo, Carnivore também tivesse passagens mais arrastadas), mas foi na proposta de 1993 que surgiu o som característico do Gothic Metal de Type O Negative, o que representou um avanço considerável no género. Tirando a mencionadas Kill All The White People e We Hate Everyone (que são tendencialmente mais viradas para o Thrash e Punk), o resto do álbum é muito mais semelhante à obra aqui em questão, October Rust.

Assim, além de uma confirmação inegável da direcção da banda em relação ao Gothic Metal, o terceiro álbum de originais (não contando a paródia de The Origin Of The Feces...) representa o paradigma do Gothic Metal moderno (apesar de ter muito mais para oferecer que apenas o tradicional do estilo) e mais um importante momento num género cuja fundação e delimitação estética muito deve aos desgraçados vindos de Brooklyn.




Alinhamento
01 - Bad Ground
02 - Intro (Untitled)
03 - Love You To Death
04 - Be My Druidess
05 - Green Man
06 - Red Water (Christmas Mourning)
07 - My Girlfriend's Girlfriend
08 - Die With Me
09 - Burnt Flowers Fallen
10 - In Praise Of Bacchus
11 - Cinnamon Girl
12 - The Glorious Liberation Of The People's Technocratic Republic Of Vinland By The Combined Forces Of The United Territories Of Europa
13 - Wolf Moon [Including Zoanthropic Paranoia]
14 - Haunted
15 - Outro (Untitled)

Ano 1996

Editora Roadrunner Records

Faixa Favorita 08 - Die With Me

Género Gothic Metal

País EUA

Banda
Johnny Kelly – Bateria*
Josh Silver – Teclado
Kenny Hickey – Guitarra
Peter Steele (Peter Ratajczyk) – Voz, Baixo

*Nota: Apesar de ser creditado como no álbum, toda a bateria do álbum foi programada.



Review
Numa visão periférica, October Rust apresenta-se como um perfeito e modelar álbum dentro do que é o Gothic Metal. O referido género "sofre" uma influência enorme de TON, seja a nível directo (para diversas bandas que seguiram o paradigma criado), seja na criação de uma série de características que ou não existiam anteriormente (e aqui podemos definir Bloody Kisses como o início do som "típico" de Type O Negative, pelo menos no que ao Gothic Metal diz respeito) ou não tinham a mesma desenvoltura que a banda de Type O Negative lhes deu.

No entanto, o trabalho não se confina a ser um modelo de um género específico (apesar de representar esse papel na perfeição, como já foi dito). Isto acontece por dois motivos: em primeiro lugar devido às inúmeras influências externas que a banda ainda denota nalguns momentos e ainda que as mudanças sejam mínimas (muito menos bruscas que no álbum anterior) há incursões noutros subgéneros (quando o som se torna mais lento e pesado há uma clara vibração mais ligada ao Doom Metal e ao contrário quando existem momentos mais virados para o Gothic Rock nas músicas mais acessíveis como o clássico My Girlfriend's Girlfriend); em segundo lugar, porque a própria identidade da banda é bastante única e transcende em vários planos (especialmente o lírico) o próprio género em que a banda mais se insere. Já para não falar na qualidade intrínseca do trabalho que o torna um álbum essencial de Goth Metal, não apenas mais um entre muitos ou numa situação em que é valorizado puramente pelo facto de ter surgido pelas mãos de uma banda pioneira no mencionado género.

Percebe-se logo aos primeiros segundos do álbum (literalmente) que a banda tem uma forma de estar (na música em geral) bastante própria e "característica", nomeadamente no que ao humor diz respeito: a primeira faixa (Bad Ground) são quase quarenta segundos de ruído que dá a sensação do CD estar riscado o que fez com que algumas pessoas tentassem devolver o CD sem perceber que era suposto ser assim devido à partida da banda... É de pensar que a seguir a este momento a banda iria começar a levar as coisas mais "a sério", no entanto essa assumpção logo se mostra errada já que na segunda faixa (que não tem título) temos a banda a gozar com a partida anterior, a apresentar os membros (Peter, Johnny, Kenny e Josh) e depois a agradecerem o facto de o ouvinte ter comprado o álbum. Na mesma linha, a última faixa (também sem título) tem o vocalista/baixista Peter Steele a desejar que a audição não tenha sido demasiado desapontante ("I hope it wasn't too disappointing")...

O resto do álbum é mais "limpo" destes momentos (entenda-se que isto não se refere ao humor negro que está, felizmente, sempre presente) se bem que ainda há referência a uma das paródias mais conhecidas da banda, "People's Technocratic Republic Of Vinnland", uma área imaginária algures entre o Canadá e os EUA (na verdade no nome vem de Vinland, nome dado pelos Vikings a uma zona inserida no que hoje é o Canadá) de onde a banda clama ser e cujo presidente é... Peter Steele. A faixa com o pomposo nome de The Glorious Liberation Of The People's Technocratic Republic Of Vinnland By The Combined Forces Of The United Territories Of Europa é pouco mais de um minuto a retratar a "libertação" dessa república imaginária com sons bélicos em forma de marcha militar.

Contundo, não se pense que o tom geral do álbum é o divertimento leviano. Bem pelo contrário, o álbum tem vários momentos de negatividade que cobrem estados como a depressão, o luto ou a suave melancolia, sendo que este último aspecto que poderá muito bem ser o pano de fundo dominante do trabalho na sua tentativa de retratar os dias de prostração que invadem o Outono. Muita desta flutuação de sentimentos e estados de espírito é responsabilidade dos teclados quase omnipresentes de Josh Silver que são uma das principais linhas condutoras de todo o trabalho, com um som bastante distinto e equilibrado entre os vários ambientes criados pelo teclado. Silver varia entre uma série de técnicas que não só conferem ao álbum uma riqueza maior, como provam que se está na presença de um dos mais talentosos e criativos teclistas dentro do género... e não me refiro apenas ao Gothic Metal em particular.

Alguns dos sons mais reconhecíveis de October Rust são as introduções das mais conhecidas faixas do álbum (muito por causa do trabalho de sintetizadores que contém) como My Girlfriend's Girlfriend ou a tremenda balada Love You To Death, ambas com um espantoso trabalho de teclados seja pelo som único que têm, seja pela predominância que têm na música. No caso de My Girlfriend's Girlfriend (uma música sobre um afortunado triângulo amoroso em que o vocalista/baixista Peter Steele se vê envolvido), são os teclados muito ao estilo da segunda do Gothic Rock que dão à música um apelativo muito especial e tornam a música numa das mais conhecidas músicas de TON.

A par das introduções e dos solos, temos o lado mais atmosférico dos teclados, que geralmente coincide com as alturas em que a banda soa mais próxima do Doom (como acontece na épica Haunted) o que incute uma certa soturnidade às faixas. Além da referida Haunted (que é uma referência óbvia), a hilariante frase do refrão de Be My Druidess é acompanhada de alguns dos mais sinistros teclados de todo o álbum e o mesmo se pode dizer para a penosamente realista Red Water (Christmas Mourning).

Além destes apontamentos, é de referir que muita da riqueza do álbum a longo prazo se deve à mestria de Silver mesmo nos momentos em que os teclados não são predominantes ou nem sequer aparecem em pano de fundo. Existem subtis incursões dos teclados em momentos chave do álbum que enfatizam determinado som (muitas vezes até outros elementos como a guitarra ou a voz de Steele) e que são instrumentais para o sentimento que a banda pretende recriar. Depois de tudo isto, Josh Silver também foi o responsável pela programação da bateria (bem como co-produziu o álbum com Peter Steele) que, ao contrário do que os créditos dizem atribuindo-a ao baterista Johnny Kelly, foram inteiramente programados em estúdio. Em relação a este aspecto não há muito a dizer, não só porque quase não se nota que a bateria é programada (que é o que interessa, já que ninguém estaria à espera de brilhantismo com programação da bateria) mas também porque é um elemento que não grande importância no álbum (provavelmente de forma propositada devido ao que foi referido).

Ainda no campo da produção é de destacar a forma como todo o álbum está bem construído no que diz respeito ao balanceamento do binómio peso/melodia. Apesar de os teclados serem de uma clara importância (e a forma como são usados dão um aspecto mais melodioso e calmo a todo o álbum), o peso das guitarras e do baixo é sempre considerável. Além de tudo soar de forma cristalina (outra coisa não seria de esperar e exigir), tudo tem o seu espaço e tempo para surgir dentro do som, o que é muito positivo dado que sublinha uma das principais qualidades da banda, isto é, a sua qualidade na composição das músicas, nomeadamente nas mais longas como a minha preferida Die With Me onde há uma exaustiva exposição de tudo o que a banda tem de melhor para oferecer.

A produção também mantém o som característico de TON - e que de alguma forma foi cravado definitivamente em Bloody Kisses - embora se notem algumas diferenças em relação ao anterior trabalho. Este aspecto tem a sua materialização sobretudo na forma como a guitarra actua. Kenny continua a desempenhar um papel fundamental no álbum, mas o som da guitarra é mais límpido e tem algumas variações que não eram tão evidentes (ou não existiam de todo) no álbum que precedeu October Rust.

A distorção de guitarra típica de Type O Negative (e que influenciou incontáveis bandas...) está presente mas acaba por ser ligeiramente mais suave. Isto deve-se principalmente ao da distorção ser mais ouvida nos momentos mais arrastados e lentos, o que não acontece assim tantas vezes neste álbum. No geral, as músicas também não são muito pesadas (embora esta constatação só sirva em análise com os álbuns passados da banda, uma vez que é um álbum bastante pesado para o que é normal dentro do Gothic Metal) e daí esta pequena atenuante no som da guitarra. No entanto, isto não quer dizer que Kenny não esteja a altura dos acontecimentos. Algo que é curioso notar é o dinamismo da guitarra que assenta que nem uma luva no som melodicamente poderoso da banda: a guitarra pode, por um lado soar suave e gentil em faixas como Love You To Death ou Die With Me e por outro lado soar obscura e pesada em momentos como Red Water (Christmas Mourning) ou Wolf Moon [Including Zoanthropic Paranoia]. Da mesma forma, músicas como My Girlfriend's Girlfriend ou Cinnamon Girl (um original de Neil Young sublimemente adoptado ao estilo de Type O Negative), não seriam as mesmas sem os contagiantes riffs saídos dos dedos de Kenny.

O outro representante do campo das cordas é nada mais nada menos que Peter Steele. O membro mais reconhecido da banda tem, naturalmente, um enorme destaque em October Rust. Falando primeiro no seu desempenho como baixista, o que se encontra no álbum é uma tremenda performance de Steele, que ajuda em muito a definir o som profundo e grandioso do álbum. Steele toca com bastante força e energia o que lhe dá um estilo único de execução, seja em que prima musical esteja inserido (o seu trabalho com Carnivore é exemplo desta multiplicidade). Adicionando a isto o facto do baixo ser um elemento com bastante importância no som de TON (e na própria caracterização do mesmo), dá para perceber que Steele é bastante mais do que a face de Type O Negative. É igualmente notável a forma como Steele vai variando o trabalho e imprimindo diferentes tons e texturas nas músicas virtude do seu papel enquanto baixista. Se por um lado temos belas melodias como na balada Green Man, por outro lado temos um trabalho de outra ordem completamente diferente em Burnt Flowers Fallen em que na maior parte do tempo o som é mais acelerado.

Mais do que o destaque nalgum momento em particular (e aqui nem temos um momento como Black Nº1...), o distinto som do baixo de Peter Steele é um bom resumo do que October Rust representa no cômputo geral: refrescante (muito raramente vemos um baixo com esta importância dentro do género... e aqui refiro-me ao género alargado de TON) e imponente nos seus melhores momentos.

Falando em imponência, poucos serão os adjectivos que descrevam melhor que imponente a outra parte da contribuição (mais reconhecível, claro) de Steele no álbum. O álbum é invariavelmente marcado pelos vocais graves (muito graves) e poderosos do gigante vocalista de TON. Porventura o som mais distinto do trabalho (sem desprimor ou relegação para um plano de irrelevância de tudo o resto) é a voz de Steele e isto muito se deve à forma como a voz se consegue destacar de tudo o resto devido ao timbre único do vocalista, sem nunca destruir a coesão das músicas. Isto é particularmente evidente em momentos menos pesados em que a voz de Steele ainda se consegue encaixar de forma perfeita (exemplo paradigmático disto é a já referenciada Cinnamon Girl). No entanto, não se restringe ao descrito até agora: a performance teatral de Steele vai variando entre os graves pronunciados e autênticos uivos que acentuam o lado mais negro de algumas das músicas (e que acaba por ser o sentimento mais predominante do álbum). A excelente balada Love You To Death tem simultaneamente alguns dos graves mais profundos do álbum e alguns dos melhores momentos do timbre mais "vampírico" (que a pronúncia característica do vocalista também acentua) de Steele. Momentos memoráveis como os que surgem no meio de Die With Me não parecem atingíveis (acima de tudo pela unicidade do timbre) por outro vocalista que não Peter Steele.

Tão importante quanto a qualidade vocal de Steele é a qualidade lírica (departamento também a cargo do vocalista) e neste aspecto poderemos dizer que as duas estão a par em termos qualitativos. As letras variam entre temas tão distintos como o amor, melancolia e... erotismo florestal ou o trabalho de um operador num parque público de Nova Iorque. Claro que estes dois últimos temas são extremamente literais mas acabam por ser a prova de como Steele consegue atingir simbiose perfeita entre assuntos mais solenes e doses de humor (negro, preferencialmente) consideráveis. Momentos como o refrão de Be My Druidess mostram bem o contraste entre a solenidade da música (incluindo a voz) e as letras. Numa altura bastante Doom e tenebrosa eis que surge:

I'll do anything
To make you cum...


No entanto, aliado a este momento, nesta mesma música, temos um dos elementos que mais vão surgindo nas letras: o erotismo e a devoção à figura feminina. Um contraste acentuado se olharmos para o primeiro trabalho da banda, mas que ganhou grande relevância em October Rust. Além da mencionada música, baladas como (não tanto por o serem, mas sobretudo pelas letras) como Love You To Death ou Die With Me mostram igualmente esta nova abordagem. A figura feminina é, aliás, a grande fonte de inspiração de Steele para a componente lírica do trabalho visto que, das mais variadas formas (mais sérias ou mais humorísticas), a temática vai sempre surgindo e devido às desventuras de Steele com antigas paixões (aliás, o álbum é dedicado à ex-namorada Elizabeth que também surge no vídeo de Love You To Death) se torna no elemento que mais provoca e inspira o sentimento melancólico que percorre todo o álbum.

É verdade que as letras centram-se fundamentalmente na temática já enunciada, mas temos ainda músicas muito mais fúnebres como Red Water (Christmas Mourning) que descreve o sentimento de perder um ente querido. Steele aborda a questão de forma quase "infantil", mas de forma brutalmente real e quotidiana:

My tables been set for but seven,
just last year I dined with eleven.


Da mesma forma, que quase surge inconscientemente e com uma leve ponta de humor, surge a letra existencialista de Green Man (o nome é referência directa à cor dos uniformes usados por Peter Steele quando trabalhava nos parques públicos de Nova Iorque), que acaba por resumir um pouco todo o conjunto de emoções melancólicas transmitidas pela música e letras do álbum, sendo simultaneamente a melhor letra do álbum:

Sol in prime sweet summertime,
Cast shadows of doubt on my face.

A midday sun, its caustic hues,
Refracting within the still lake.


Sendo um álbum com uma coesão e compatibilidade (características que não equivalem a repetição ou aborrecimento) e sendo o sentimento geral maior do que a soma das (excelentes) partes que o constituem, torna-se complicado destacar algum momento. Porventura músicas como Love You To Death, Green Man e Wolf Moon (Including Zoanthropic Paranoia), pela forma como estão notavelmente compostas, surgem como alguns dos temas mais representativos da majestosidade de October Rust, mas são insuficientes para perceber a qualidade do álbum como um todo. Mesmo uma referência à arrepiante Die With Me (que pessoalmente considero o melhor momento do álbum) seria injusta se não enquadrada com tudo o que o trabalho representa e atinge...

Conclusão
Em October Rust as influências externas foram bastante mais deixadas de lado (pelo menos directamente) e caminhou-se numa direcção mais homogénea. Não querendo com isto dizer que a diversidade vincada que pautava os trabalhos anteriores era um factor negativo (muito pelo contrário), a direcção mais clara do álbum beneficia o resultado final sem o tornar excessivamente formulado ou previsível.

October Rust surge, ironicamente, como um momento de definição para Type O Negative. Ironicamente porque sendo uma obra de retracto emocional de um conceito específico, abrange sensibilidades que não costumam estar associadas a momentos de segurança (mesmo para a definição do som de uma banda). É talvez este sentimento de vulnerabilidade que percorre a obra em tons de melancolia que a tornam - juntamente com a enorme qualidade de execução - tão apelativa e essencial (um clássico pode-se até dizer, alargando o sentido do termo) dentro do estilo em que se insere.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Classic Album: Mayhem - De Mysteriis Dom Sathanas

Na sessão Classic Albums pretende-se homenagear as obras que merecem ser relembradas. Aqueles álbuns que consideramos fundamentais para os ouvintes de Heavy Rock...

Nota: Esse review foi originalmente escrito na forma lusitana da língua portuguesa. O blog Arise! optou por manter dessa forma no intuito de preservá-lo como foi concebido.


Mayhem - De Mysteriis Dom Sathanas

Por PhiLiz

Introdução
Mayhem (incluindo todos os músicos à volta da banda) é provavelmente a banda de Black Metal mais controversa da década de 90. Toda a gente que tem alguma relação com o estilo conhece as histórias: Homicídios, igrejas queimadas, declarações polémicas e uma enorme cobertura mediática, especialmente no país onde tudo ocorreu, a Noruega.

Isto são os mitos, as lendas... e em relação à música? O que dizer do mais importante, do que realmente interessa? Concretamente, estão os Mayhem à altura de toda a reputação criada à volta da banda por causa das acções dos seus variadíssimos membros? Indubitavelmente que sim.



Alinhamento
01 - Funeral Fog
02 - Freezing Moon
03 - Cursed In Eternity
04 - Pagan Fears
05 - Life Eternal
06 - From The Dark Past
07 - Buried By Time And Dust
08 - De Mysteriis Dom Sathanas

Ano 1994

Editora Deathlike Silence Productions

Faixa Favorita 02 - Freezing Moon

Género Black Metal

País Noruega

Banda
Attila Csihar – Voz
Count Grishnackh (Varg Vikernes) – Baixo
Euronymous (Øystein Aarseth) – Guitarra
Hellhammer (Jan Axel Blomberg) – Bateria



Review
Há que dizer, antes de mais nada, que o que faz este álbum tão único é o ambiente geral do álbum, que é simplesmente de outro mundo. Este pormenor em particular não é passível de ser posto em palavras tal é a sua unicidade. Todo o som do álbum é um buraco negro e gélido que consome o ouvinte de todas as formas... a todos os momentos.

A guitarra do falecido Euronymous (morto por Varg ainda antes da edição do álbum) tem aqui um papel fundamental neste ambiente... fria, cortante e mecânica, cria um sentimento destrutivo onde todos os objectos em redor se tornam um potencial foco de destruição. A verdade é que os riffs sombrios de Euronymous são uma marca distinta do trabalho primordial de Mayhem e embora tecnicamente não fosse um génio, ainda hoje o trabalho de guitarra mais distinto da banda foi o executado por Aarseth.

Os vocais são outra marca muito distinta e polémica deste seminal trabalho. Ohlin, imortalizado com o pseudónimo Dead tinha-se suicidado antes da gravação do álbum, pelo que a voz ficou a cargo de Attila Csihar. Os vocais de Attila são parte fundamental na construção deste trabalho fantasmagórico e negro e na construção da sua espantosa atmosfera, seja com os guturais sussurrados e de alguma forma suaves ou os momentos mais operáticos com que Attila presenteia o ouvinte. Os vocais são drasticamente diferentes dos guturais violentos de Dead, mas o resultado é fabuloso.

O trabalho de bateria é fabuloso. "Blast beats" a alta velocidade, variações rítmicas sublimemente executadas (as duas primeiras faixas são as que mais sublinham este pormenor) e o mais complexo trabalho instrumental do álbum fazem com que Hellhammer seja o membro que mais se destaca no álbum. A qualidade do baterista de Mayhem é de resto mais que reconhecida e o seu rol de participações noutras bandas fala por si.

Em relação a faixas, há dois momentos que definem o álbum (e a própria carreira da banda): Funeral Fog e Freezing Moon. Duas músicas símbolo do que o Black Metal representa. Tudo o que um género simboliza imortalizado em duas músicas brilhantes. Basta ouvir o arrepiante solo em Freezing Moon e os vocais insanos em Funeral Fog. Buried By Time And Dust, Pagan Fears, Life Eternal são mais três clássicos da banda. A faixa-título e From The Dark Past são igualmente muito boas. A única música menos conseguida será Cursed In Eternity, que é, no entanto, uma boa música.

Apenas dois pormenores um tanto ou quanto negativos. Em primeiro lugar, o facto de nunca podermos ter ouvido Dead em estúdio, com este tipo de produção (que é bastante boa tendo em conta os meios, o estilo da banda e o seu próprio passado a este nível). Sim, Attila é um monstro, mas já tendo ouvido a voz incrível de Dead não deixo de pensar o que seria este álbum com ele.

O outro pequeno detalhe prende-se com o facto do baixo estar demasiado enterrado (propositadamente depois do pequeno "incidente" que Varg teve com Euronymous e com os pedidos da família deste último) no álbum. Penso que se o baixo fosse mais audível seria uma mais-valia para este clássico.

Conclusão
Na generalidade, é um dos mais brilhantes e seminais trabalhos na história do Black Metal, um álbum que influenciou muitos dos músicos no estilo. Um marco e essencial para qualquer fã.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Classic Album: Mago de OZ – Jesús de Chamberí

Na sessão Classic Albums pretende-se homenagear as obras que merecem ser relembradas. Aqueles álbuns que consideramos fundamentais para os ouvintes de Heavy Rock...



Por Wesley Rodrigues

Difícil entender porque não tem tantos fãs de Mago de Oz por aqui. A explicação que primeiro salta à vista e a única que parece existir é o fato de eles cantarem em espanhol. Enquanto a gente parece impor essa barreira ridícula e permanecemos sem ter no mínimo uma distribuidora nacional para os caras, eles fazem shows para 15 mil pessoas no Chile e colecionam discos de platina, ouro e não sei mais o quê no resto da América Latina.

Jesús de Chamberí é o segundo trabalho deles, de 1996. Não há dúvida de que o rótulo mais apropriado é o de folk metal, encharcados que estão da música dita celta, como nas músicas El Cuco e la Zingara, El Jiga Irlandesa e Czardas, que depois de um clima mais soturno, é um convite à dança. Mas as fontes em que eles bebem são diversas, deixando o disco com cara de salada, ainda que coerente. Os tecladinhos Jerry Lee Lewis de El Anjo Caído e o uso de metais em Domingo de Gramos, por exemplo, além de dar um toque extra de fanfarronice (essa coisa que é intrínseca a tantas bandas de folk), enriquecem bastante o disco em termos de sonoridade, o deixam bem variado e mais delirante.

O uso dos violinos e a presença de outros estilos não conseguem tirar os dois pés da banda do tradicionalismo. Aqui não há apelo ao melódico, coisa que vai aparecer mais pra frente em outros trabalhos. Tem Deep Purple, Saxon, Dio e guitarras para nenhum fã de Smith e Murray, Tipton e Downing reclamar, vide por exemplo o dueto da faixa título. Algo mais hard aparece em Judas e em Hasta que la Muerte nos Separe, que tem talvez o melhor solo de uma guitarra que, se por um lado não é um primor de originalidade, por outro tem um timbre muito bem escolhido, trabalha bem as fórmulas antigas e não fica perdendo tempo com cretinices técnicas.

O disco é conceitual e isso merece um capítulo à parte. Trata-se da saga de um Jesus humanista e libertário (essa imagem de Cristo é um tanto pop entre os ilustrados!!) que aparece em Chamberí, um distrito de Madri. Ele aconselha as pessoas a fazerem bastante sexo (a letra de Al-Mejandría diz inclusive que o paraíso perdido é o que há entre as pernas da mulher) e não só curte um cigarrinho, como o eleva a símbolo religioso de máxima importância quando institui que quando dois ou mais estiverem fumando haxixe, ali estará ele também, além de outras coisas que chocariam a sua avó.

Heresia, bom humor, feeling, melodia, peso...Não tem motivo nenhum para não se ouvir essa bela obra.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Classic Album: Xasthur - Nocturnal Poisoning

Na sessão Classic Albums pretende-se homenagear as obras que merecem ser relembradas. Aqueles álbuns que consideramos fundamentais para os ouvintes de Heavy Rock...

Nota: Esse review foi originalmente escrito na forma lusitana da língua portuguesa. O blog Arise! optou por manter dessa forma no intuito de preservá-lo como foi concebido.


Xasthur - Nocturnal Poisoning

Por PhiLiz

Introdução
Num género cujo dinamismo e mutação constantes não são tão notados como na realidade acontecem, Xasthur surge como uma inovação, não de um ponto de vista estrutural, mas como um extremar e numa toada de levar mais longe algo que já tinham de alguma forma, sido anteriormente fundado.

Na prática, projectos como Strid, Silencer (ambas as bandas de uma forma mais típica do estilo, embora com elementos distintos do que geralmente existe no BM, mas acima de tudo Mütiilation (antigo projecto das LLN e que tem direito a uma cover neste álbum, o que mostra a sua influência em Xasthur) já tinham nos seus lançamentos a partir do meio dos anos 90, materializado o que hoje se convenciona chamar Depressive Black Metal ou mais recentemente SDBM (Suicidal Depressive Black Metal), mas Scott Conner (nome pouco reconhecido, mas que é o verdadeiro nome por detrás de Malefic) levou o conceito aos limites da sua vertente mais violenta e sufocante.

Logo nos primeiros trabalhos compreende-se a estética negra e melancólica do projecto de Malefic, através de uma produção enterrada e desconexa, com influências claras da fase mais ambiental de Burzum. Aliás, estaria longe de imaginar em 1996, um dos mais geniais compositores de Metal dos anos 90, quando lançou as bases para um "devaneio" estético dentro do BM. Falo claro de 'Filosofem', última demonstração extrema pelas mãos de Varg.

De um ponto de vista morfológico, Burzum é, inclusive, uma influência por demais evidente, uma vez que depois de Malefic abandonar a ideia de ter uma banda, concentrou-se apenas ele em Xasthur.

No entanto, Malefic vai (musical e conceptualmente) mais além, pois por detrás do projecto há um objectivo claro, uma ideia fixa e fomentar a extinção da raça humana, num impulso claramente misantrópico e que é inerente à própria pessoa do mentor do projecto.

Em 1999, e já como um projecto individual na sua totalidade, começam os primeiros split's, demos e EP's, lançando fortes indicações do que viria a ser lançado neste primeiro álbum, em 2002.

Em 'Nocturnal Poisoning', Xasthur confirma-se como um projecto extremo, onde a misantropia e a intenção clara de enterrar de enterrar em depressão as almas que se cruzem com a índole perturbadoramente depressiva de Xasthur, se tornam em algo magistralmente transposto numa (negra) obra-prima sonora.



Alinhamento
01 - In The Hate Of Battle
02 - Soul Abduction Ceremony
03 - A Gate Through Bloodstained Mirrors
04 - Black Imperial Blood
05 - Legion Of Sin And Necromancy
06 - A Walk Beyond Utter Blackness
07 - Nocturnal Poisoning
08 - Forgotten Depths Of Nowhere

Ano 2002

Editora Blood Fire Death

Faixa Favorita 01 - In The Hate Of Battle

Género (Depressive) Black Metal

País EUA

Banda
Malefic (Scott Conner) - Todos os instrumentos e voz.



Review
Uma das primeiras impressões que se tem de Xasthur é o carácter perturbante das músicas, quando absorvidas no seu total desespero e melancolia. Não falo numa tentativa de ouvir a banda como se de uma banda de (Black) Metal mais típico se tratasse, mas sim de uma verdadeira forma de deixar a invasão sonora do projecto de Malefic penetrar na mente, com toda a sua intensidade. Ai, até mais do que tristeza, misantropia, desolação, sentimentos depressivos e suicidas, temos um vazio perturbador, algo pior que a negatividade, simplesmente uma paisagem sonora monocromática, tão forte que inutiliza os sentidos e o pensamento.

Talvez este efeito de afastamento e palidez, seja provocado pela antítese que representa a existência de Xasthur, projecto fundado num dos mais agitados estados dos Estados Unidos. Quando se vive na Califórnia, como Scott Conner vive, os sentimentos negativos são uma ilha no meio das sensações antagónicas aqui presentes.

Tudo em Xasthur é pouco convencional. As estruturas das músicas (cinco das oito neste álbum a superar os sete minutos de duração) são muito diferentes do habitual, mesmo em relação ao BM, com várias variações de ritmo constantes, um forte uso de teclados e sobreposição de guitarras. A produção é enterrada e crua, mas sempre deixando ouvir com clareza os elementos presentes, criando assim uma atmosfera intensa e sufocante, factor este que é marca distinta de Xasthur. Aliás, quando se fala numa produção adequada à intencionalidade do álbum, 'Nocturnal Poisoning' adequa-se na perfeição. Uma produção demasiado límpida e cristalina tiraria parte do sentimento de distância e vazio que se prolonga durante todas as faixas, além de que se perderia grande parte da atmosfera nas músicas. É, portanto, a produção adequada para o efeito desejado e neste aspecto tem que se salientar o brilhantismo de Scott Conner, sobretudo em relação ao volume e momento em que cada elemento (particularmente voz, guitarras e teclados) surge nas músicas.

Falando dos elementos principais neste álbum de estreia, os teclados são provavelmente o instrumento mais distinto em todo o álbum. Existe um forte uso de sintetizadores para criar uma atmosfera intensa, ora melancólica, ora caótica, ora simplesmente triste. Aliás, musicalmente falando, será talvez o único instrumento com momentos mais complexos (a beleza de Xasthur está em muito associada ao minimalismo do projecto), muitas vezes surgindo apenas como pequenos lamentos, numa fúria caótica e desordenada, ou simplesmente extraordinariamente melancólicos. Os momentos criados pelos sintetizadores (falo no plural, porque muitas vezes são vários que são ouvidos durante o álbum) são muito belos, mas ao mesmo tempo de uma melancolia e desolação extremas. São como que a "outra voz" nas músicas, criando uma atmosfera densa e negra que caracteriza o álbum e até o próprio projecto em si (distingui-o claramente de outras bandas do género e que se colaram, com melhores ou piores resultados, ao conceito de Xasthur).
No entanto, não se espere teclados com um elevado cariz épico (são-no até certo ponto, mas numa interpretação muito própria de Malefic) e integrados num conceito de beleza comum ou tão pouco como são utilizados pela maioria das bandas do estilo. São por vezes os elementos mais demonstrativos de toda a dolorosa raiva que inunda o trabalho, contrastando com a sua habitual função puramente atmosférica (que, como já referi, também a tem) e transcendendo-se para uma angustiante beleza, onde a solidão reina e tudo surge como estando no eterno sofrimento.

Por seu turno, as guitarras têm um papel menos evidente que os teclados. São executadas com vários riffs repetidos de forma exaustiva, extremamente distorcidas e muitas vezes sobrepostas, formando o som "enterrado" que se ouve em todo o álbum. É de notar, no entanto, que à semelhança dos teclados, também é muitas vezes o elemento a dar uma áurea depressiva às músicas.

O baixo não é muito audível (o que não é novidade no estilo e sobretudo compreende-se pelo objectivo que Xasthur encerra) e quando é ouvido está geralmente integrado de forma simples nas faixas.

No que diz respeito, à bateria, esta é tocada por uma "drum machine", pelo que não há muito a dizer. Marca a passagem de ritmos de forma mais acentuada e de forma exacta, mas não representa um elemento distinto no álbum, o que tal como o baixo não é novidade e não é de forma alguma negativo, pois o objectivo do álbum não é focar estes elementos individualmente, mas sim torná-los parte de um todo, em si genial.

Chegamos por fim à voz. E falamos aqui no mais inumano elemento do álbum. Os vocais de Malefic, além de bastante enterrados na mistura final, encerram em si o objectivo principal do álbum: um hino ao suicídio, através da dor, melancolia, depressão, ódio, raiva e negatividade em geral. São guturais rasgantes (a lembrar os de Varg nos primórdios mas ainda mais arrepiantes), autênticos calafrios na espinha devido à sua grotesca beleza. As vocalizações não são parte constante das faixas, mas quando surgem, são momentos incríveis e que completam ainda mais o álbum, tornando-o ainda numa maior obra-prima do que já seria, caso fosse puramente instrumental. Aliás, a voz de Malefic é algo incrível de ouvir, seja em projectos tão bizarros como Sunn O))) ou juntando-se a membros de Nachtmystium para interpretar um tema do álbum de Twilight, numa das suas raras incursões ao vivo.

O álbum tem uma duração invulgar para um lançamento do género, ultrapassando os setenta e nove minutos, apesar de apenas serem oito músicas. Tal também se entende, pois é suposto ser ouvido como um todo. O que se compreende ainda mais do que o habitual em álbuns longos porque a variedade, entre e no seio de cada música, é muito grande e quando ouvido com atenção (repito, não é um álbum fácil de entender, nem de audição leve) prende o ouvinte pelo mundo distorcido criado por Malefic. É possível destacar momentos de magistral negritude, mas se não ouvido como um todo, perde-se boa parte da magia de 'Nocturnal Poisoning'.

Falo logo da abertura, In The Hate Of Battle, com variações de ritmo frequentes e alguns dos mais agonizantes riffs do álbum. As vocalizações são, como em todo o álbum, tenebrosas, tornando o primeiro impacto do álbum, uma faixa representativa do trabalho, mas igualmente num hino de Black Metal depressivo, como só Xasthur pode produzir. Liricamente, o projecto é imperceptível sem as letras ao lado (e mesmo assim é complicado), mas está em perfeita consonância com a música a deambular entre os temas suicidas, desesperantes e/ou místicos. Neste caso, prende-se com o puro ódio:

Hatred bled onto the soul
With a fury to kill
Killed brethren
Without respect for lives unholy
A hatred possessing my soul
With a fury to kill



A homenagem a Mütiilation com Black Imperial Blood mostra bem uma das influências da banda e apesar de estar fiel ao original, é uma interpretação bem "xasthuriana" de uma das grandes faixas produzidas por Meyhna'ch no enorme 'Vampires Of Black Imperial Blood'.

Por fim, destacar a última música, apenas com sintetizadores, fazendo lembrar muito 'Hliðskjálf'. Forgotten Depths Of Nowhere faz jus ao nome e em jeito de despedida, lembra uma marcha fúnebre, onde já nem a dor ou tristeza têm lugar, simplesmente o vazio...

Pouco mais há a dizer, senão que 'Nocturnal Poisoning' é uma autêntica opus misantrópica e suicida, uma viagem pela dimensão conturbada criada por Malefic, dimensão essa onde a agonia sufocante e a desolação eterna formam paisagens repetidas indefinidamente.

Conclusão
Xasthur é um projecto único, de uma mente única e pessoalmente, todo o conceito do projecto me diz muito. Depois do álbum de estreia lançou outras grandes obras. No entanto, a nível de intensidade, talvez nunca tenha igualado 'Nocturnal Poisoning'. Não é fácil. Considero o álbum que agora acabo de descrever como um dos melhores alguma vez criados dentro do Black Metal (embora Xasthur "ultrapasse" não raras vezes, o estilo, musicalmente falando). Depois de Burzum não me lembro de algo tão fabuloso como o álbum de estreia de Xasthur.

Essencial para quem compreenda (ou queira compreender) os caminhos mais negros da mente humana, ou simplesmente para findar a própria existência.

sábado, 22 de março de 2008

Classic Album: Blind Guardian – Nightfall in Middle-Earth

Na sessão Classic Albums pretende-se homenagear as obras que merecem ser relembradas. Aqueles álbuns que consideramos fundamentais para os ouvintes de Heavy Rock...



Blind Guardian – Nightfall in Middle-Earth

Por Wesley Rodrigues

Pode-se dizer que este é o melhor e mais significativo disco dos últimos dez anos (não sem objeções, naturalmente). Enquanto alguns ainda propõem restringir-se ao estilo “old school”, o Blind Guardian soube trazer o seu Heavy Metal para a contemporaneidade. E o fez com muita propriedade, atingindo um resultado nada menos que soberbo nessas 22 faixas, onze das quais são vinhetas. O disco elevou a banda a um outro patamar que já vinha sendo trilhado desde os anos oitenta, mas que ganhou enorme impulso com o também impecável Imaginations From the Other Side (1995).

A abertura fica por conta da intro War of Wrath (soa muito estranho a pronúncia desse título!) que para os mais fãs se tornou uma nova Apocalipse 13;18 (que antecede a The Number of the Beast do Iron Maiden). Ela dá lugar à poderosa Into the Storm que é cheia de lindas e fortes melodias. E que guitarrista é Andre Olbrich! Os que têm banda e se dedicam às seis cordas não podem deixar de dar atenção especial a ele. Encontrarão ali sem dúvida uma aula de como fazer solos cheios de feeling.

A balada Nightfall é representativa de uma característica fortíssima do Blind que são os refrões grandiosos. Em um show, eles pedem para ser cantados com o máximo de devoção possível por qualquer um que esteja no recinto. The Curse of Feanor mostra um Kursch mais agressivo e mais uma vez deixa o ouvinte dividido entre bangear com a fúria da música ou se deixar levar pelas inebriantes frases de guitarra. Blood Tears e Noldor tem uma outra proposta, são músicas lentas e dramáticas mas que não deixam de ter seu momento heavy. O hit Mirror Mirror, ao contrário, é mais alegre e puxada para o metal melódico, com boas pitadas de folk.

Time Stands Still mantém o nível do álbum nas alturas e o ouvinte convencido de que está diante da que pode ser considerada a maior contribuição alemã para a humanidade. Thorn vem em seguida e mostra mais um talento de Kursch, o de letrista. Enquanto várias bandas simplesmente escarram palavras para serem cantadas, Hansi tem um cuidado grande com elas. E esse álbum foi especial já que o compositor contou com a ajuda de especialistas na obra de Tolkien.

Depois, entra a triste e intensa The Eldar, levada no piano e que dá bem o tom de tragédia presente no Silmarillion (obra na qual o disco é inspirado). Aqui há outro grande momento de Hansi que mostra versatilidade indo do angelical ao furioso. When Sorrow Sang é para mostrar que o passado da banda não foi esquecido. Na verdade, esta música tem mais a ver com a sonoridade do Imaginations do que com a do Nightfall in Middle Earth. A Dark Passage, com seus coros, é uma canção à altura de fechar uma obra de tal grandiosidade.

Nightfall in Middle Earth é o momento mais bem-sucedido de uma banda que buscou se diversificar e evoluir. Caminharam no mesmo sentido com os sucessores “A Night at the Opera” (2002) e “A Twist in the Myth” (2006) mas aqui o êxito foi menor. Entretanto, esses discos conseguiram manter o Blind no topo. Uma banda que tem um Olbrich e um Kursch não poderia estar em outro lugar.




Blind Guardian
Nightfall in Middle Earth
Ano: 1998
Produção: Blind Guardian
Gravadora: Virgin
Formação: Hansi Kursch (vocal), Andre Olbrich e Marcus Siepen (guitarras), Thomas Stauch (bateria).

sexta-feira, 21 de março de 2008

Classic Album: The Doors - Strange Days

Na sessão Classic Albums pretende-se homenagear as obras que merecem ser relembradas. Aqueles álbuns que consideramos fundamentais para os ouvintes de Heavy Rock...

Nota: Esse review foi originalmente escrito na forma lusitana da língua portuguesa. O blog Arise! optou por manter dessa forma no intuito de preservá-lo como foi concebido.

The Doors - Strange Days

Por PhiLiz

Introdução
É para mim uma tarefa utópica fazer uma review que me deixe satisfeito no que concerne à forma como poderia transpor em algumas (mais ou menos, é irrelevante) palavras o que os Doors foram no seu tempo (e depois), mas mais importante o que representam para a mim. É estranho estar alguém nascido dezoito anos depois da morte de Morrison em Paris (e que ainda nem completou o mesmo número de anos de vida) a falar sobre banda que findou (originalmente) em 1973. O que é certo é que provavelmente os Doors dizem-me tanto ou mais a mim do que a um qualquer pai que hoje em dia olha para os vinyls com nostalgia.

Mais estranho se torna esta devoção, quando ideologicamente e musicalmente acho execrável a maioria do mainstream musical e da atitude da época: O "peace and love", as bandinhas suaves e formatadas e todo um clima de passividade que me irrita pessoalmente. Isto pode ajudar a explicar três coisas: O porquê de eu, jovem de hoje, ainda idolatrar a música dos na altura jovens californianos; O surgimento de uma banda que em contraste com o que se passava apelava ao caos, à violência, à desordem civil, num turbilhão de poesia, alucinogénos e força criativa; A concepção deste álbum, o mais negro e obscuro da carreira da banda.

Dando por terminada a minha experiência mais pessoal com a banda (biograficamente falando, claro) vou apenas pegar num aspecto que foquei acima: O deslocamento que os Doors tinham em relação ao que se fazia. Enquanto a maioria apelava para uma atitude indolente e pouco reactiva, Morrison mostrava os dentes, espreguiçava-se numa América hipócrita e moralista com uma mensagem cheia de Niilismo caótico. Este álbum é isso mesmo... canta-se o lado negro da noite, o obscuro, num tom alegremente depressivo (é antagónico, bem o sei, mas é exactamente isto que se vai passar em Strange Days) e sempre com uma dose de originalidade que nunca viria a ser igualada.

Estes eram os "dias estranhos" de uma banda que conseguiu sobreviver ao fantástico álbum de estreia e que se tornou na maior banda norte-americana de Rock do final dos anos 60, sendo simultaneamente um dos maiores fenómenos de contra-cultura nos Estados Unidos.



Alinhamento
1. Strange Days
2. You're Lost Little Girl
3. Love Me Two Times
4. Unhappy Girl
5. Horse Latitudes
6. Moonlight Drive
7. People Are Strange
8. My Eyes Have Seen You
9. I Can't See Your Face in My Mind
10. When The Music's Over

Ano 1967

Editora Elektra

Faixa Favorita 10. When The Music's Over

Género Classic Rock

País EUA

Banda
Jim Morrison - Voz
John Densmore - Bateria
Ray Manzarek - Teclado & Marimba
John Densmore - Bateria

Músicos Convidados
Douglas Lubahn - Baixo em algumas músicas.



Review
Como se deve perceber após a introdução que fiz, os Doors não eram uma banda convencional. A imagem de Morrison, a mensagem da banda e acima de tudo a estética musical eram completamente à parte do que se fazia na altura. A imagem do álbum, uma representação circense, apenas com o nome da banda em plano muito reduzido, se comparado com as flores e imagens coloridas da altura já denota algo destino. Vamos avançar...

Alguém que não esteja familiarizado com o som dos Doors e a forma como os seus elementos faziam uso das suas potencialidades, vai ficar surpreendido nalguns aspectos. Em primeiro lugar, a música é centrada no piano de Manzarek que faz simultaneamente o som do baixo com a outra mão. Os Doors nunca tiveram um baixista fixo e isto sempre influenciou muito a forma de tocar e toda a composição da banda. No álbum, temos Manzarek a criar uma atmosfera de sons hipnóticos e psicadélicos. O ambiente negro com simples tons de piano, um tanto ou quanto alegres. Um oxímoro, por vezes belo e suave no caso das músicas mais ligeiras do álbum como Unhappy Girl, I Can't See Your Face In My Mind... ou então violentos e caóticos como no portentoso When The Music's Over.

Tudo isto é acompanhado pelos riffs semi-nítidos de Krieger. Sempre com uma vibração muito própria, são mais um dos elementos atmosféricos a puxar para o psicadelismo. São no entanto brilhantes as performances da guitarra algumas das músicas mais conhecidas do álbum: People Are Strange e Love Me Two Times.

Chegamos a Densmore e à confusão enorme (no melhor sentido possível) que eram as influências do baterista dos Doors. Desde Jazz a Bossa Nova, passando claro pelo Rock, a bateria era um debitar de tendências várias que davam à parte rítmica da banda um som do mais original possível. O álbum vale também muito a pena pela energia embutida por John na bateria.

Por fim, chegamos a Jim Morrison. A voz do mítico vocalista não é um prodígio de alcance... mas tem um toque de mistério, hipnose e força que a tornam única. Mas mais importante que isso, são as letras: na maior parte do tempo apocalípticas (When The Music's Over), mas com alguns momentos mais românticos (Love Me Two Times) ou ainda, mais introspectivos (People Are Strange).
Sendo a maior parte das músicas da mesma altura das que constituíam o álbum de estreia, a temática dos dois álbuns é semelhante, embora aqui exista um sentimento um pouco mais negro. No que concerne a Morrison, há ainda a inclusão de um dos seus poemas apenas com alguns efeitos por detrás. Trata-se de Horse Latitudes

When the still sea conspires an armor
And her sullen and aborted
Currents breed tiny monsters
True sailing is dead
Awkward instant
And the first animal is jettisoned
Legs furiously pumping
Their stiff green gallop
And heads bob up
Poise
Delicate
Pause
Consent
In mute nostril agony
Carefully refined
And sealed over


Num álbum destes, tão poderoso é complicado destacar apenas algumas músicas. Embora aqui, surjam algumas das melhores músicas da banda e essas que vou falar mais...

Na faixa três, temos Love Me Two Times, um dos clássicos da banda. Excelente riff e uma das mais inspiradas performances vocais de Morrison em estúdio. Uma canção de amor, extremamente explícita que após a prisão de Morrison num concerto em New Haven (onde a banda estava a tocar a música por detrás quando Jim começou a ironizar um incidente de bastidores com um polícia). Atingiu o número vinte e cinco dos "charts" nos EUA, enquanto single.

Temos um pouco mais à frente Moonlight Drive, com a sua áurea hipnótica. Esta foi, reza a lenda, a primeira música composta pela banda. Segundo é contado, foi a que Morrison cantarolou a Manzarek quando os dois se encontraram na praia da Venice na Califórnia: «Let's swim to the moon, let's climb through the tide, penetrate the evening that the city sleeps to hide». Apesar de ser relativamente simples, encerra uma mensagem destrutiva de morte por afogamento.

Outro grande momento vai para o clássico People Are Strange. Uma canção sobre a solidão... a verdadeira solidão que se esconde por detrás da multidão. Talvez a música que (a par da primeira música) melhor representa todo este período da banda. A música chegou ao número doze do top americano de singles.

Por fim, o opus do álbum! When The Music's Over é mais uma das músicas longas da banda, na linha do épico The End (que para mim reside ainda como a melhor música já alguma vez feita). Durante onze minutos, a banda viaja por entre momentos de calma, onde praticamente apenas os teclados são audíveis. Morrison vai declamando o seu poema com a banda a dar corpo às letras (tomem bem atenção para a integração da parte instrumental com as letras, quando Morrison dispara «The scream of the butterfly»). A seguir o caos total e toda a intensidade da banda posta em evidência. Brilhante a todos os níveis...

Cancel my subscription to the Resurrection
Send my credentials to the House of Detention
I got some friends inside

(...)

We want the world and we want it...
We want the world and we want it...
Now
Now?
Now!


Conclusão
Os Doors são a minha referência musical. Independentemente de ainda serem ou não a minha banda preferida. São como um velho amigo, que raramente vemos, mas do qual continuamos a perceber cada gesto... que sabemos exactamente o que ele vai fazer. Este álbum é dos mais paradigmáticos para mim, nesse aspecto em concreto.

O álbum é reconhecido como um dos melhores álbuns dos Doors e comercialmente também foi um sucesso escalando ao número três do top de álbuns americano em 1967 e figurando no número 407 de melhores álbuns de sempre da revista Rolling Stone.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Classic Album: William Shakespeares’ Hamlet

Na sessão Classic Albums pretende-se homenagear as obras que merecem ser relembradas. Aqueles álbuns que consideramos fundamentais para os ouvintes de Heavy Rock...


Por Wesley Rodrigues

William Shakespeares’ Hamlet é um interessante projeto encabeçado pela Die Hard Records, de 2001. Aqui foram reunidas 14 bandas brasileiras de diferentes estilos (porém com presença maior do power e do melódico) para compor músicas inspiradas no famoso livro. Todas as letras couberam a Adriano Villa. As orquestrações ficaram por conta de maestro José Luiz Ribalta. Fábio Laguna ajudou no teclado e Mario Pastore nos vocais para as vinhetas ao longo do disco. As presenças ilustres são André Matos (que fez umas pontas em uma música de Ribalta) e Sascha Paeth que trabalhou a mixagem. Trata-se, portanto, de não pouca coisa. Um projeto ambicioso e de certa forma representativo do Heavy Metal brazuca.

Sem querer ser muito chato, penso que seria, digamos, mais natural que um álbum conceitual feito por bandas brasileiras partisse de temas nacionais. Existe muita coisa da nossa cultura e da nossa história que tem muito a inspirar. Fala-se de vikings, de cruzadas, de Tolkien e deixa-se intocados temas brasileiros de alto potencial artístico. Mas paremos de reclamar e reconheçamos que o conceito foi muito bem escolhido. A obra Hamlet de Shakespeare é uma entidade para o gênero humano. Particularmente, é minha obra de ficção favorita. As questões que aborda são diversas, universais, ricas e relevantes o bastante para alimentar liricamente um artista pela eternidade.

A faixa de abertura é From Hades to Earth, da banda Delpht. O destaque aqui são os vocais cheios de efeito. Isso alinhado ao bom uso dos teclados ajudou a criar uma atmosfera especial para a música que é uma das melhores (na verdade, a minha preferida) deste trabalho. O disco segue com Sweet Flavour of Justification, uma balada onde o Santarem consegue um bom resultado. Hammer of the Gods executa Visions of the Beyond que é uma música boa, mas sem causar grandes impressões. Depois de mais uma descartável vinheta chegamos ao Krusader que não deixou faltar nenhum clichê do melódico em The King’s Return e não fez feio no seu esforço de seguir todos os passos do Rhapsody. Da pomposidade à selvageria: marcando forte contraste com a faixa anterior, o Nervochaos apresenta sua competente podreira em The Truth Appears e revela que para ouvir William Shakespeare’s Hamlet é necessário boa dose de ecletismo. As bandas Vers’Over e Sagga trazem A Letter to Ophelia e Dagger of Words, respectivamente, mostrando ambas com um power-melódico eficiente. O nível sobe bastante com Imago Mortis em um doom encabeçado pelos ótimos vocais de Alex Vorhees. Em Prayers in the Wind, eles dão uma prévia do que fariam no ano posterior no fundamental disco Vida: The Play of Change. Em Hamlet, o heavy metal melódico vai encontrar sua melhor expressão com o Symbols de Edu Falaschi na bela música Stormy Nights onde o (nem sempre bem-sucedido) vocalista do Angra dá muito bem o seu recado. Um dos destaques do disco. Passada mais uma vinheta, o Hangar de Aquiles Priester não deixa a peteca cair com o seu power meio thrash e depois dá lugar ao death metal bem técnico do vitorioso do Wacken Battle, o Torture Squad, que vai contar sobre o plano do Rei de matar Hamlet. Depois do Fates Prophecy marcar presença com Trap, os católicos do Eterna entram para detonar. Banda de sorte, com dois vocalistas excelentes (hoje não mais), eles emplacam uma ótima música, Goodbye my Dear Ophelia, com uma boa combinação de teclados e peso. A última banda é o Thuata com uma canção que começa levada nos violões e regada à flauta no maior clima “estamos na floresta, vamos dançar em volta da fogueira”, pra depois ganhar a presença de guitarras distorcidas. O Grand Finale é a orquestrada música To Be, que conta com a participação de todas as bandas, cada uma cantando um verso. Idéia interessante mas que não deu muito certo. Nem a presença do sempre excelente André Matos salvou a coisa.

Mesmo com faixas menos expressivas, o resultado alcançado é bem positivo. O disco tem momentos de excelência que o fazem valer, dos quais destaco Delpht, Imago Mortis, Torture Squad e Eterna. Creio que o maior mérito aqui fique mesmo para a Die Hard pela iniciativa corajosa e complicada de reunir essas bandas. Que ninguém deixe de dar uma conferida neste importante registro do heavy nacional.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Classic Album: Ramp – Intersection

Na sessão Classic Albums pretende-se homenagear as obras que merecem ser relembradas. Aqueles álbuns que consideramos fundamentais para os ouvintes de Heavy Rock...

Nota: Esse review foi originalmente escrito na forma lusitana da língua portuguesa. O blog Arise! optou por manter dessa forma no intuito de preservá-lo como foi concebido.

Ramp – Intersection

Por PhiLiz

Introdução
Os Ramp são uma das maiores bandas nacionais. Aliás, internamente pode-se mesmo dizer que são a que mais êxitos coleccionou (sim, ultrapassando a certa altura os Moonspell). Uma boa parte desse sucesso começou a ser atingido neste mesmo álbum.

Intersection foi o primeiro álbum de Metal português a atingir o Top de vendas nacional. Além da grande rodagem que o videoclip de All Men Taste Hell teve em alguns canais de TV da altura.

Este sucesso é sem dúvida merecido. Muitos clássicos de Ramp saíram daqui e é surpreendente como é que uma banda ao segundo álbum consegue lançar um álbum tão consistente.

Alinhamento
1. All Men Taste Hell
2. Own Way
3. Black Tie
4. So You Say
5. Fate
6. Like You
7. Unpointless Name
8. Win
9. Trip
10. Friendly Word
11. Through

Ano 1995

Editora UL IV

Faixa Favorita 4. So You Say

Género Thrash Metal

País Portugal

Banda (na altura)
João "Sapo" [Baixo]
Paulo Martins [Bateria]
Ricardo Mendonça [Guitarra]
Rui Duarte [Voz]
Tó-Zé [Guitarra]



Review
Entramos no álbum com um grito potente de Rui Duarte em All Men Taste Hell. Esta faixa é ainda hoje dos temas mais rodados nos concertos ao vivo da banda. O refrão é bastante "catchy" e contamos ainda com alguns solos potentes. É de mencionar ainda o trabalho de baixo, de grande nível.

Em Own Way as influências de Pantera fazem-se sentir ainda mais. A versatilidade de Rui Duarte começa-se a desvendar sendo que vai desde a voz agressiva até à melódica com uma facilidade tremenda. A letra é bastante directa e urbana, falando do caminho que devemos percorrer a cada dia que passa.

Depois, outro clássico da banda, Black Tie. O riff principal é soberbo... mas não lhe ficam atrás os solos. O trabalho de bateria é formidável (já vi Ramp ao vivo com bateristas e eles mesmo dizem que o Paulo Martins é uma "máquina"). Uma letra sobre insegurança que é interpretada com bastante agressividade por parte de Rui Duarte.

O momento alto do álbum vem em So You Say. Para começar o tema, somos presenteados com excelentes linhas de baixo. Os riffs de guitarra vêem logo a seguir... entre os versos temos uma acalmia para depois acelerar ligeiramente no refrão. Os solos são também nada menos que brilhantes. Das melhores músicas da banda.

Depois de um momento melódico, voltamos à agressão pura. Com uma letra bastante pessimista (ironicamente), Fate assume-se como mais uma faixa sólida onde os riffs são bastante densos e a voz de Rui Duarte se mostra mutável conforme os temas.

Like You é quase que um tema Hardcore. Não só pela letra crítica à Democracia, mas também pela forma como as guitarras vão surgindo.

Segue-se Unpointless Name que vai variando entre os riffs mais agressivos e as partes mais melódicas. Mais uma vez, a crítica à sociedade instituída e aos abusos de poder. Mais uma vez a bateria a bom nível.

Em Win nota-se que os Anthrax também devem passar muitas vezes pelo leitor dos membros da banda. A agressividade da banda mantém-se, sendo que estrutura da música é um pouco mais complexa (talvez por isso ser a música mais longa do álbum)

Já na recta final, temos Trip. É na linha das músicas anteriores e talvez seja um pouco forçada... o sentimento de "filler" paira sobre o tema... mas não deixa de ter os seus momentos poderosos.

Quase a terminar, Friendly Word. Mais um excelente momento. A letra é bem real, sobre como uma simples palavra pode mudar vidas. Os solos fazem lembrar por vezes Planet Earth e este é sem dúvida o momento mais calmo do álbum... ainda assim excelente.

Para acabar, outra música bastante tocada pelos Ramp ao vivo. A electrizante Through. Numa onda mais Speed bem típica dos anos 80, não destoa em nada no término deste Intersection.

Conclusão
Este álbum tem grandes momentos. Apesar das influências serem por vezes demasiado óbvias (Anthrax e Pantera à cabeça) este Intersection tem vida própria e foi pedra basilar de uma carreira longa e cheia de sucessos da banda do Seixal.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Classic Album: Running Wild - Under Jolly Roger

Na sessão Classic Albums pretende-se homenagear as obras que merecem ser relembradas. Aqueles álbuns que consideramos fundamentais para os ouvintes de Heavy Rock...


Running Wild - Under Jolly Roger

Por João Rafael Gualberto

Em minha primeira resenha escolhi um disco clássico do Heavy Metal dos 80. Under Jolly Roger (1987, Noise Records), 3º álbum da banda alemã Running Wild, é um disco que carrega o peso característico da ‘velha escola’, com excelente cadência e ótimas ‘levadas’ tradicionais!

Logo na abertura, a faixa título dá todo o teor do que virá pela frente! Pesada, com agressividade na medida certa e riffs matadores, ‘Under Jolly Roger’ nem precisaria dos tiros de canhão (sim, há tiros de canhão pela música!) para passar o recado!

A segunda faixa é “Beggar’s Night”, que com uma clássica levada de bumbos duplos e um excelente solo executado por Rock’n’Rolf Kasparek (frontman da banda), continua a manter o apreciador do bom Heavy Metal atento ao disco! Depois, duas músicas que certamente figuram entre as melhores deste petardo oitentista: “Diamons Of The Black Chest”, possuidora de um dos riffs mais pesados presentes nesse álbum e de um simples e ótimo solo, marca típica do Running Wild e “War In The Gutter”, um verdadeiro estimulante a sair batendo cabeça, com um refrão que é uma pedrada só!

A faixa seguinte é do tipo clássica, para levantar os fãs em um show: “Raise Your Fist”, que também possui um excelente refrão e um ótimo solo, dividido em duas partes (mais uma vez executado por Rock’n’Rolf). Depois de tanta nitroglicerina, o disco diminui um pouco o ritmo. “Land Of Ice”, como o nome sugere, carece da energia das demais, e é uma pisada no freio. Com uma cadência mais lenta, é forte candidata a ser severamente pulada para a seguinte, “Raw Ride”, outra martelada, introduzida por motores de motos furiosas, dotada de um belo solo dobrado! A faixa que encerra o disco começa com riffs fortes, palhetados como metralhadoras e em ritmo alucinante e mais um ótimo solo dobrado, finalizado por um tema que lembra um verdadeiro hino, uma celebração a todo o disco! Um final coerente para um álbum mais do que excelente!

Um disco de Heavy Metal que certamente pode e deve ser considerado um dos melhores desta banda e desta década!

Ano de lançamento: 1987

Gravadora: Sanctuary Records (relançamento)

Formação do disco:
Majk Moti. (lead guitar)
Rock’n’Rolf ( lead guitar and vocals)
Stephan Borisss (bass)
Wolfgang “Hasche” Hagemann (drums)

Produtor: Rock’n’Rolf

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Classic Album: The Doors - The Doors

Nota: Esse review foi originalmente escrito na forma lusitana da língua portuguesa. O blog Arise! optou por manter dessa forma no intuito de preservá-lo como foi concebido.

The Doors - The Doors

Por Philiz

Introdução
Os The Doors são uma das mais influentes bandas da história do Rock. O vocalista, Jim Morrison atingiu o estatuto de mito devido aos seus comportamentos escandalosos (foi várias vezes preso e uma vez condenado), à sua personalidade marcante mas sobretudo devido às letras e poemas geniais que deixou, após uma morte prematura com apenas 27 anos de idade.

O 1º álbum gravado em 1967 foi um marco na música da altura, tendo além de atingir o sucesso, marcando várias bandas que surgiram depois dos The Doors. Foi o início de uma história que pode-se dizer trágica (devido à morte de Jim em Paris, apenas 4 anos mais tarde), de sucesso, mas acima de tudo de extremos.


Alinhamento
1. Break on Through (To the Other Side)
2. Soul Kitchen
3. Crystal Ship
4. Twentieth Century Fox
5. Alabama Song (Whiskey Bar)
6. Light My Fire
7. Back Door Man
8. I Looked at You
9. End of the Night
10. Take It as It Comes
11. The End

Ano 1967

Editora Elektra

Faixa Favorita #11 - The End

Género Classic Rock

País Estados Unidos Da América

Banda
James Douglas Morrison (Jim Morrison) [Voz]
Ray Manzarek [Teclas]
Robbie Krieger [Guitarra]
John Densmore [Bateria]

Review
O 1º álbum da formação californiana é possivelmente um dos melhores álbuns da história do Rock. Com uma sonoridade muito própria a banda de Jim Morrison conquistou o sucesso graças sobretudo ao tema Light My Fire. Embora este tenha sido o grande "hit" o álbum tem outros momentos altos, tais como, o tema de abertura Break On Through (To The Other Side) que é como se sentisse uma explosão de energia quer pelos vocais de Morrison, quer também pela letra da canção. Os covers Alabama Song e Backdoor Man estão também muito bem conseguidos e melhores mesmo que o original. Por último temos o tema épico The End que foi mais tarde utilizado na banda sonora do filme Apocalipse Now de Francis Ford Capola, que foi colega de Morrison na Universidade de Cinema da Califórnia (UCLA). O tema trata de temas como a morte, sexo e violência. Retrata também na perfeição o Theatre Rock muito procurado por Morrison nas suas letras. Ao longo de 11 minutos viaja-se pelo oculto da mente humana. O momento alto é quando Morrison dispara: "Father? I Want To Kill You; Mother? I Want To Fuck You", acho que não precisa de tradução...

Conclusão
Um álbum altamente recomendado para quem se considera fã do puro Rock.

sábado, 29 de dezembro de 2007

Classic Album: Bride – Snakes in the Playground

Na sessão Classic Albums pretende-se homenagear as obras que merecem ser relembradas. Aqueles álbuns que consideramos fundamentais para os ouvintes de Heavy Rock...


Bride – Snakes in the Playground

Por Wesley Rodrigues

Snakes in the Playground é um álbum que merece entrar em uma seção de clássicos - não pela influência que tenha gerado ou por ser largamente reconhecido (afinal, esse disco dificilmente aparecerá em uma lista dos dez mais do Hard Rock ou coisa parecida, e nem foi grande referência para ninguém.) Ele entra nesta seção é pela qualidade mesmo, como um trabalho daquelas bandas que ficam meio escondidas nos catálogos, e que depois de as ouvirmos nós nos perguntamos porque elas não figuram no hall do mainstream, já que não devem nada para quem está lá (a década de 1980 está cheia dessas bandas, assim como o cenário brasileiro contemporâneo). O que o Bride fez nesse disco não é nada inovador ou diferente. Pelo contrário, é um Hard Rock puro – e simples, eu diria -, mas altamente enérgico e cativante.

A faixa “Rattlesnake” já diz a que veio, quebrando tudo depois da introdução e apresentando, logo de cara, o trunfo da banda, Dale Thompson, um vocalista sem dúvida acima da média. Canta com a técnica (e a afinação!) que faltam a um Sebastian Bach (Skid Row) ou Axl Rose (Guns N`Roses). Trabalha bem a voz e tem boa interpretação como mostra “Some Things Never Change”. “Fallout” é outro destaque, onde o cantor mostra alguma versatilidade. Mas ele brilha mais nas faixas “Would You Die For Me” e “Psychodelic Super Jesus”, onde há momentos de verdadeira explosão em que o vocalista esbanja potência.

O guitarrista Troy Thompson se revela um excelente compositor com riffs marcantes, ainda que dentro de um estilo bem básico. Seus solos já não têm o mesmo impacto, sendo alguns muito tímidos, constituindo-se em verdadeiros tapa-buracos. Nada que atrapalhe o andamento das canções, porém.

Hard Rock sem balada é incompleto. Esse disco traz duas. A primeira é “I Miss The Rain”, com destaque para o uso de um bandolim, que ficou bem legal. A segunda é a perfeita “Goodbye”, faixa de encerramento levada no piano.

Está feita a indicação. Quem gosta daquela onda de Hard do final dos 80 e início dos 90 vai encontrar no Snakes in the Playground uma de suas melhores produções.

Bride
Snakes in the Playground
Produção: Plynki
Ano: 1992
Gravadora (no Brasil): Golden Hill
Formação: Dale Thompson (vocal e percussão), Troy Thompson (guitarra, violão, bandolim, cello e viola), Rik Foley (contra-baixo), Jerry McBroom (bateria).

domingo, 23 de setembro de 2007

Classic Album: King Diamond - Conspiracy

Na sessão Classic Albums pretende-se homenagear as obras que merecem ser relembradas. Aqueles álbuns que consideramos fundamentais para os ouvintes de Heavy Rock...



King Diamond – Conspiracy

por Wesley Rodrigues

Um dia desses numa conversa ouvi algo bastante interessante, que foi mais ou menos assim: “Não ter respeito é foda. Veja por exemplo o Angra...tem um sucesso absurdo mas é uma banda muito zuada. E com ela você pode incluir várias de melódico. O Sepultura é outra que, apesar do legado, não tem respeito unânime. Mas o King Diamond não. Ele é diferente, o cara tem muito respeito apesar de toda excentricidade.”

Concordo plenamente. King Diamond tem um status altíssimo dentro do Heavy Metal. O talento está mais do que manifesto em obras como Don’t Break the Oath do Mercyful Fate e Abigail da sua banda solo. Na lista dos que já demonstraram admiração por ele está Michael Amott (Arch Enemy), Alex Camargo (Krisiun) e André Matos (esse todo mundo sabe quem é).

Achei interessante essa conversa sobre respeito porque algumas vezes já vi pessoas que gostam de metal o ridicularizarem. Os motivos vão desde as poses nas fotos com sua caracterização e postura supostamente satanista até, e principalmente, os vocais em falsete. Tudo isso acaba virando um obstáculo para que o indivíduo passe a gostar da banda. Esse é, por exemplo, o problema dos meus pais que têm a ele um repúdio quase ódio (rs). Pobre King.

Não culpo ninguém por essa resistência. De fato, os vocais são bem estranhos. Conheço um cara que disse que antigamente não ouvia King Diamond muito alto por vergonha!(rs) Porém, vale dizer que para apreciar certas obras de arte (filme, literatura, pintura, música, etc.) é necessário baixar um pouco a guarda e procurar se adaptar ao que o autor propõe. Isso pode significar, am alguns casos, se despir de preconceitos ou deixar de lado padrões para que se possa entrar no clima da coisa. Acho, portanto, bastante válido e bom qualquer esforço de compreensão de manifestações artísticas com as quais não estamos acostumados.
Uma rejeição pura e instantânea de qualquer obra impede que se crie um maior ecletismo e aceitação de outras tendências, estilos, etc., o que é, a meu ver, uma postura limitante e empobrecedora. Isso é exatamente o que faz “bangers” mais tradicionais que, embora ouçam King Diamond (já não estamos mais falando dele aqui), se fecham de forma idiota dentro do Heavy Metal como se ele fosse o único estilo bom na Terra e que tratam como especial e superior o que na verdade é só mais um. Acho uma postura mais inteligente entender que todos os estilos de música (e de outros tipos de arte) têm seu valor dentro dos contextos em que são produzidos e consumidos. Não pretendo dizer com isso que tudo é maravilhoso e que devemos ouvir tudo, mas sim que diferentes estilos existem para diferentes pessoas e, principalmente, que nós podemos ser mais elásticos quanto aos nossos gostos - ou, se não isso, pelo menos pararmos com uma atitude de arrogância e estupidez tão facilmente encontrada nos círculos de metal.

Sem mais masturbações, que essa conversa já está quase perdendo o rumo, voltemos ao King.

Talvez ele continue uma barreira intransponível para alguns e que risinhos de cinismo e piadinhas continuem a ocorrer quando ele é ouvido. Mas é uma pena que as coisas sejam assim. Tudo isso deveria cair por terra quando você coloca um disco do calibre de Conspiracy para rodar. Esse disco é de 1989. É o quarto de sua carreira, tendo sido lançado depois do comercialmente bem sucedido Them (que aliás é o que eu considero o melhor).

A primeira faixa é At The Graves. Primeiro tem uma introdução que narra o quanto um garoto sente falta de sua irmãzinha morta, dando bem aquele clima de filme de terror. Em seguida, o metal começa com as vozes cantando: Rise my friends...rise/Spirits rising from their graves... e aí a casa cai. Essas primeiras frases são uma boa amostra da força de sua voz e logo de cara dá para perceber que ele coloca o coração no que faz. Seu vocal é bem versátil e as canções são interpretadas com muito feeling. E daí por diante o que se tem são vários riffs e solos de guitarra bem inspirados numa música longa e complexa.
O disco segue com Sleepless Nights, onde os vocais são destaque. Lies vem em seguida e tem um solo muito bonito. A Visit From The Dead também está entre as melhores com uma intro no violão muito legal. Outros faixas de destaque são as instrumentais e curtas Something Weird e Victimized.

O disco conta à história de um garoto que sofre bastante: de um lado, pela perda da irmã, e de outro, pelo que sua mãe lhe reserva. Tudo isso embalado por um Heavy tradicional com guitarristas excelentes: Andy LaRocque (que assina várias faixas) e Pete Blakk. Eles fazem desse disco um prato cheio para quem gosta de um bom trabalho de guitarras!

Em suma, Conspiracy é matador: um som pesado, com músicas que variam bastante e os já citados solos e riffs indefectíveis. Simplesmente um Heavy Metal de altíssima qualidade. E se você continuar de frescura por causa do vocal, azar o seu.

Conspiracy (1989)
Gravadora: Roadrunner Records (Brasil - 1996)
Produção: Roberto Falcao, King Diamond e Andy La Rocque
Line-up: King Diamond (vocal), Andy La Rocque (guitarra), Pete Blackk (guitarra), Hal Patino (baixo)
Músicos de apóio: Mikkey Dee (bateria), Roberto Falcao (teclado)